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Lucia Bertazzo

Leonel Kaz

textos, resenhas e artigos de Leonel Kaz

É preciso entender como a festa da mestiçagem se deu em corpos, palavras e sonoridades 

 

“Todo o brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo [...] a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro.” 

                                                                                            

Gilberto Freyre, 1933

 

 

Ritmo, sensualidade, o vigor da natureza, aromas e sabores intensos, o movimento singular do corpo, o sincretismo religioso... são traços culturais que caracterizam o povo brasileiro. De que matéria fomos feitos? É da formação histórica que surge nosso caráter lúdico? É da miscigenação que emerge nossa criatividade festeira e musical? É a própria exuberância da natureza, com suas formas arredondadas, que permitiu nossa expressão efusiva e, paradoxalmente, barroca? 

 

Na Europa do século 13 já se falava de uma ilha chamada Brasil. De acordo com a cartografia da época, essa ilha ficava para lá da Escócia. Conhecida como o “paraíso perdido” na Terra, seu nome se agregou ao imaginário sobre uma terra que, em 1500, seria descoberta no Hemisfério Sul. O primeiro viajante que aqui aportou, Pedro Álvares Cabral, trazia na sua equipe o escrivão Pero Vaz de Caminha que relatou, na primeira carta ao Rei de Portugal, que esta era uma terra “em que se plantando, tudo dá!”. 

 

Durante os três séculos seguintes, a história da colonização portuguesa nos trópicos seria marcada pela intensa exploração econômica do território. De terras brasileiras seriam extraídos a madeira, o ouro, a cana-de-açúcar e o café, sempre com mão de obra escrava: índios da terra ou negros trazidos da África. Desse amálgama entre povos diversos e uma poderosa natureza local foi surgindo o Brasil que hoje conhecemos. O Brasil que se plasma, de forma autêntica, em suas festas populares.

 

A vida brasileira é definida, em grande parte, pela centralidade do corpo, ao redor da qual gravita toda a cultura, em suas múltiplas manifestações. Um escritor francês do século XVI, que acompanhou as tentativas de fundar a França Antártica no Rio de Janeiro comentava espantado sobre as peculiaridades dos povos nativos, em seus cuidados corporais tidos por “exóticos” diante do olhar europeu. Segundo Jean de Léry, as índias “alegavam para justificar sua nudez que não podiam dispensar os banhos e lhes era difícil despir-se tão amiúde, pois em quanta fonte ou rio encontravam, metiam-se n’água, molhavam a cabeça e mergulhavam o corpo todo como caniços, não raro mais de doze vezes por dia.

 

Podemos dizer que a mestiçagem é a essência do Brasil. Ela se deu em corpo e espírito. Em forma e em volume: primeiro, o corpo arredondado da geografia; depois, o corpo carnoso e arredondado dos frutos e, enfim, a mestiçagem corporal e cultural que originou a música e a festa do país tropical. No Brasil Colônia era comum brancos fazendo batucadas e negros tocando árias. O antropólogo Gilberto Freyre nos conta sobre um senhor de engenho da Bahia, no início do século XVIII, que possuía uma orquestra formada por trinta escravos negros; o regente era um francês nascido em terras provençais. 

 

Foi a trama da vida negromestiça de baianos no Rio que gerou o samba carioca, uma das mais vivas formas de expressão festeira – agregada ao Carnaval – do Brasil.  “À viva crepitação da música baiana calaram-se as melancólicas toadas de além-mar”, escreveria, no século XIX, o romancista Aluízio Azevedo. Em meados do mesmo século, o Rio de Janeiro, a capital do Império, era considerada “a cidade dos pianos”. Ou seja, uma fusão dos ritmos brancos europeus – o foxtrot, a valsa, a mazurca – aos ritmos dos atabaques das senzalas edos escravos negros. 

 

Nossa formação étnica e nosso amor do ritmo permitiram também uma aproximação notável entre os universos erudito e popular. O tambor nos aproxima e nos identifica – há batidas de tambores pulsando no interior das “Bachianas Brasileiras”, de Villa-Lobos, assim como nas baterias (conjuntos orquestrais só com instrumentos de percussão) que são o coração das escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro, no Maracatu Rural pernambucano, no Bumba-meu-Boi maranhense.  O ritmo musical nos faz perceber o modo como o povo brasileiro entrelaça suas raízes europeias, africanas e ameríndias nas batidas e polirritmias do pandeiro, da zabumba e do agogô. Não é apenas a música que nos une... são os nossos ouvidos. 

 

Na origem do samba estão os negros bantos, vindos de Angola e do Congo, com a origem colaborando para a forte influência da percussão em nossa paisagem sonora, percussão que solicita o corpo e a dança –e, diga-se, os africanos não faziam distinção entre música e dança. Dessa palpitação rítmica, desse corpo livre dos séculos de pregação contra os “pecados da carne”, livre de toda a moral da contenção e da censura, nasceu grande parte da descontração brasileira. Descontração que hoje se instala nas comemorações dos festejos populares.

 

A matriz de tanta vibração corporal, percussiva, rítmica, é a África. Numa passagem famosa do livro Casa Grande & Senzala, de 1933 – livro-fundador do pensamento antropológico brasileiro – Gilberto Freyre descreve o modo como a presença africana distribuiu cores vivas no cotidiano da colônia: 

                     

“Foi ainda o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua maior alegria. O português, já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático, tristonho; e do caboclo nem se fala: calado, desconfiado, quase um doente na sua tristeza. Seu contato só fez acentuar a melancolia portuguesa. A risada do negro é que quebrou toda essa ‘apagada e vil tristeza’ em que se foi abafando a vida nas casas-grandes. Ele que deu alegria aos são-joões de engenho; que animou os bumbas-meu-boi, os cavalos-marinhos, os carnavais, as festas de Reis. Que à sombra da Igreja inundou das reminiscências alegras de seus cultos totêmicos e fálicos as festas populares do Brasil .   

 

As polirritmias africanas encontram seu paralelo corporal na pluralidade dos matizes de pele do povo brasileiro. Assim como na imensa diversidade de tradições de música e dança que foram surgindo aos quatro cantos desse país. Como escreveu Antonio Risério, “a nossa alegria mestiça, em algumas de suas manifestações mais originais, é de base negroafricana. E nasce de um corpo preciso”. 

 

A história da música brasileira se confunde com a própria história do Brasil. Em suas terras, a fusão entre o branco europeu, o ameríndio e o negro africano deu origem a um povo mestiço que vive sua realidade, muitas vezes, mais no imaginário da música do que no próprio cotidiano da vida.

 

“Mesmo sem ter consciência, a gente vive uma multiplicidade racial muito grande”, disse a artista Adriana Varejão, que realizou uma exposição designada “Polvo” (um trocadilho entre os inúmeros tentáculos do polvo e a palavra povo). O trabalho de Adriana baseou-se numa pesquisa nacional por amostragem realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ainda em 1976, que pela primeira vez incluiu o quesito “tom de pele”. O que ocorreu é que surgiram 136 palavras diferentes, das quais a artista selecionou os 33 termos mais exóticos, poéticos ou vinculados a uma interpretação especificamente brasileira de cor e, a partir deles, criou as suas próprias tintas baseadas em tons de pele. Assim, os fascinantes nomes espontaneamente mencionados pela população também exibem a criação de neologismo, quase todos com fortes influência das origens ameríndia ou africana (pela reiteração de vogais ditas em boca aberta). Entre outros tons de pele foram citadas as “cores”: ‘Fogoió’,  ‘Café com leite’, ‘Burro quando foge’, ‘Morenão’, ‘Encerada’, ‘Queimada de sol’…

 

Se a música surgiu por forte influência negra, a palavra e a poética brasileiras surgiram das interações entre curumins (crianças indígenas) e padres vindos d’Além Mar. No Brasil dos primeiros tempos, jesuítas começaram a construir uma igreja impensável em termos puritanos. Dessa prática sincrética de catequização surgem as primeiras fusões maleáveis entre a língua do colonizador e as línguas dos povos nativos. Numa carta de 1552, escrita na Bahia, o padre português Manoel da Nóbrega mencionava o hábito de “cantar cantigas do Nosso Senhor em sua (dos tupis) língua pelo seu tom e tanger seus instrumentos de música, que eles tocam em suas festas (...)”. Ao mesmo tempo em que catequizavam os índios, os jesuítas não deixavam de “tupinizar” as suas práticas (o tupi-guarani era a língua original da maioria das tribos indígenas existentes no litoral, que era ocupado, à época). Os colonizadores portugueses, que dominaram o Brasil mas não o restante da América Latina,  não conseguiram impor uma linha divisória entre a cultura dominante e a cultura dos dominados.A espécie lusitana de catolicismo medieval-barroco mostrou-se mais aberta para o “outro” do que a cultura estritamente puritana, mais fechada em seus princípios, sob os signos da pureza e do pecado, que foi dominante na colonização da América espanhola.

 

A folia da mestiçagem se produziu entre corpos e entre palavras. Era a sonoridade de um corpo também amolengado, que entregava-se voluptuosamente aos prazeres dos sentidos. Aos poucos, a mestiçagem de línguas foi arredondando o feitio do português do Brasil. Esse processo de arredondamento mestiço da língua brasileira, que está na base de toda a música feita no país, foi descrito pelo antropólogo Gilberto Freyre nos seguintes termos: 

 

“A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rrnem ss, as sílabas finais moles: palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente. A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem um sabor  quase africano: cacá, pipi, bumbum, tentém, nenem, tatá, papá, papato, lili, mimi, au-au, bambanho, cocô, dindinho, bimbinha. 

 

O arredondamento da língua, com suas vogais esféricas e amplas, seus curvos ditongos, as consoantes articuladas quase sempre de modo frouxo, revela certo gosto da curva e da voluta. Gosto barroco manifesto em tantas áreas da vida espiritual do país. Para se entender o que carioca considera ... barroco, basta ir à Igreja do Mosteiro de São Bento, no Rio, construída a partir de 1640, em pleno ápice daquele período estético. O exterior da igreja é sisudo, calado, formal, posterior em arquitetura manuelina; já, lá dentro, todas as paredes e colunas são revestidas de entalhes em madeira, recobertos de ouro e cor, mostrando flores, fauna, anjos barrocos com bochechas e nádegas arredondadas – como se bebês fossem – e uma sensação de vento, de movimento em todos os jogos de luz e sombra propiciados pelas imagens tridimensionais. Nada lá é herético. Nada lá é, no fundo, daquela religiosidade contrita. Lá, tudo é celebração, joie de vivre

 

De fato, o Brasil é um país barroco pela fala das gentes, uma linguagem que tangencia, que dá voltas, que emprega afagos e afetos. Também é um país barroco pela expressão cultural de sua música, doce e melodiosa como nos cantos da bossa-nova ou contundentemente enérgica como nos rufares dos tambores-onça de um Boi-Bumbá. O antropólogo Antonio Risério aponta para o fundo histórico que ampara tamanha paixão nacional pela curva, pelo adorno, pelo gesto expansivo e rico: “Não será excessivo lembrar que os nossos processos sincréticos tiveram os seus dias inaugurais em pleno império da cultura e da sensibilidade barrocas, que marcariam para sempre as criações brasileiras”.   

 

Foi esse “corpo preciso” citado pelo antropólogo Risério que gerou não apenas as inúmeras formas de danças em festas populares, mas também um tipo de “dança esportiva” que viria a se tornar uma grande paixão nacional e evidência de uma corporalidade especificamente brasileira ante os olhos do mundo.O Brasil é, do princípio ao fim, arredondado pela força de seu futebol-arte. É o nosso gingar, a capoeira, o movimento em que pés ficam no ar e mãos pousam no chão, piruetas que justificam um “gol de bicicleta”... O futebol também faz, ao seu modo, um amálgama da formação étnica brasileira. Obras-primas nas quais pares de pés, entre volteios, arabescos, volutas e curvas, reinventaram a própria ideia de mobilidade, conferiram novos contornos plásticos, rítmicos e melódicos ao corpo humano.

 

O Brasil pode ser visto como um grande laboratório de mestiçagem no Mundo Moderno. Mestiçagem biológica, expressa numa profusão sem fim de matizes de pele, na fusão de traços específicos dos mais diversos povos. Mestiçagem cultural, na lenta mistura de hábitos e mitos provenientes de épocas e lugares remotos. A mestiçagem uniu o Brasil. Continua unindo. Não cessa de ser celebrada em rituais e festas. Seja no carnaval de rua, nas festas juninas, nas festas de igreja, nas Cavalhadas  e nas Congadas, ou ainda no réveillon do Rio de Janeiro, quando deuses africanos são evocados para participar da comemoração do calendário cristão.

 

Mestiçagem é diferente de miscigenação. Miscigenação seria a simples mistura biológica. A mestiçagem, por sua vez, surgiria da combinação da miscigenação e da aculturação. Ela vai além, formando um povo caracterizado pela disponibilidade incomum para contatos e contágios corpóreos e espirituais – o que, no caso do Brasil, significa a mesma coisa. 

 

O Novo Mundo tornou-se um imenso laboratório de mestiçagem. Nas palavras de Antonio Risério, “a miscigenação assumiu aspectos radicalmente novos desde que as grandes navegações oceânicas – desencadeadas pelo Centro de Estudos [Escola de Navegação] que o infante D. Henrique criou no promontório de Sagres, em Portugal – revelaram a humanidade a si mesma, em todos os seus coloridos físicos e culturais. Até à chegada do século XVI, era possível contar nos dedos o número de europeus que tinha visto um negro com seus próprios olhos. Os grandes périplos marítimos e as colonizações da África e das Américas mudaram tudo. As misturas raciais ganharam uma intensidade e uma amplitude que a espécie humana jamais sonhara experimentar. E é aí que tem início a história biológica contemporânea da humanidade”. 

 

No Brasil, a miscigenação se deu, sobretudo, por razões demográficas e econômicas. Era quase total a ausência de mulheres brancas nos primeiros tempos da colonização do Brasil. Em sua expansão colonial pelo mundo, Portugal não tinha como povoar, com seus próprios homens, as regiões distantes que ia conquistando. Pobre e pouco povoado, o pequeno país da Península Ibérica foi “dramaticamente bem-sucedido” em seus empreendimentos colonizadores. A saída, evidentemente, esteve mesmo na mestiçagem. Mestiçagem que se iniciou entre portugueses e índias, para depois incorporar decisivamente a matriz africana em sua imensa diversidade humana.

 

Desse modo, a colônia portuguesa nos trópicos ganharia fisionomia própria a partir da junção, da sobreposição e da fusão entre o que o antropólogo Darcy Ribeiro definiu como “povos-transplantados” (portugueses e africanos), e “povos-testemunho” (indígenas), gerando um “povo-novo” (o brasileiro). Ao participar ativamente da invenção do Brasil, tais povos foram também se inventando como brasileiros.É preciso notar que os próprios portugueses já eram mestiços antes de aportar no Brasil, e que o mesmo valia para os africanos. O português era muito mais afeito aos intercâmbios corpóreos e culturais com os povos do Mediterrâneo e do Norte da África.

 

Mais ainda: que a mistura valeu não apenas “raças” diferentes, mas também entre etnias distintas. Essas etnias africanas que às vezes não se misturavam na África, nutrindo entre si relações muitas vezes de franco antagonismo, misturaram-se biológica e simbolicamente no espaço das senzalas, no contexto da escravidão. Como disse certa vez o músico Naná Vasconcelos, “a África se encontrou no Brasil”. Ou seja, muito do que se deu lá, como criação cultural, ganhou novas e diferentes formas de apropriação no Brasil, como é o caso do berimbau – instrumento utilizado para o jogo da capoeira.  

 

Tornou-se o Brasil desse modo um país profundamente marcado pela dinâmica da mestiçagem. Foi em meio a mestiços que aflorou entre nós os sentimentos de uma diferença com relação ao “ser português” e a Portugal. Com o tempo, o país não apenas assimilou sua condição mestiça, como passou a gostar dela. Num passado já muito recente, o Instituto Brasileiro de Pesquisas e Geografia/IBGE divulgou pesquisa na qual concluía que casamentos entre brancos e negros aumentaram em 100% entre 1991 e 2000. Ou seja, o Brasil continua em seu processo de mestiçagem, de ampliação virtualmente infinita de seus matizes de pele e tipos físicos.  

 

Tudo isso resultou numa sociedade variada e complexa. Uma sociedade marcada, acima de tudo, por paradoxos e contradições. Um pouco como Gilberto Freyre definia a matriz portuguesa, em sua indecisão étnica e cultural entre Europa e África: 

 

“A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas das duas. A influência africana fervendo sob a européia e dando um acre requeime à vida sexual, à alimentação, à religião; o sangue mouro ou negro correndo por uma grande população brancarona quando não predominando em regiões ainda hoje de gente escura; o ar da África, um ar quente, oleoso, amolecendo nas instituições e nas formas de cultura as durezas germânicas; corrompendo a rigidez moral e doutrinária da Igreja medieval; tirando os ossos ao Cristianismo, ao feudalismo, à arquitetura gótica, à disciplina canônica, ao direito visigótico, ao latim, ao próprio caráter do povo. A Europa reinando mas sem governar, governando antes a África”.

 

Pensada em outros termos, a mestiçagem brasileira era também o signo de uma grande indefinição estrutural – de uma grande interrogação que sempre perseguiu como um fantasma o destino brasileiro. Já no fim do século XIX, pouco antes da abolição da escravatura, o famoso estadista do Império Joaquim Nabuco pintava o quadro de tipo de sociedade que o Brasil moderno ia aos poucos ensejando: “São milhões que se acham nessa condição intermediária, que não é o escravo, mas também não é o cidadão [...] e a vida suspensa ao lado da imagem”. Essa mesma “condição intermediária” seria apontada de modo ainda mais incisivo por Darcy Ribeiro, quase um século após Nabuco: 

 

“O brasileiro é aquele que se assume como brasileiro para deixar de ser ninguém. É filho da índia prenhada por um branco, que não se identifica com o seu gentio materno subjugado, mas também não é aceito pelo gentio paterno, que o vê como filhoespúrio. É o mulato, parido por uma negra prenhada pelo amo ou pelo capataz que não quer ser negro, por ser mais claro e por rejeitar a condição servil da mãe, mas não é visto como igual pelos brancos. Esses mestiços e mulatos, zé-ninguéns já não sendo índios, nem afros, nem europeus, caem no vazio do não ser, de que só podem escapar assumindo outro ser, outra identidade, a de brasileiro. Brasileiro é, pois, esta gente nativa mestiça, sobrante e indesejada, que irrompe na sociedade colonial, partida entre senhores e escravos, como uma entidade nova e intrusa. A imensa maioria destes brasileiros, tantos os de ontem como os de hoje, tidos como brancos, deixa ver, nas feições, a marca de sua origem indígena; se morenos, sua ancestralidade africana.”  

 

Ao lado de sua inequívoca plasticidade – de sua capacidade de incorporar, absorver e dissolver – encontramos um país marcado pela indisciplina cultural, pela frouxidão social, e por seduções irrecusáveis. Uma cultura que acabou criando uma dinâmica de tolerância, sincretismo e absorção da diferença, sem eliminar o preconceito na prática. 

 

A dinâmica da mestiçagem animou não apenas os ritmos e os jeitos do corpo, mas também a vida espiritual do povo brasileiro, sua religiosidade quente. No réveillon de Copacabana, o calendário cristão é celebrado com oferendas a deuses iorubanos da religião do candomblé africano. Um deles, a divindade aquática Iemanjá, era deusa das etnias egbás da Nigéria. Na África, costumava ser representada como uma senhora negra de formas plenas e seios avantajados. Era protetora dos rios, numa região que ficava distante do litoral. No Brasil, Iemanjá acabou se misturando com o mito europeu da sereia branca. Ficou com a pele um pouco mais clara e ainda ganhou um belo rabo de peixe. Tornou-se a “rainha do mar”, uma das entidades mais famosas do amplo repertório de santos sincréticos que transformou o catolicismo brasileiro quase num politeísmo pagão.

 

Gilberto Freyre, em seu Casa-Grande & Senzala, descreveu o impacto da mestiçagem nos trópicos fazia com que os religiosos abrissem mão de certa ortodoxia –  isto nos idos do século XVIII, como até os dias de hoje:

 

“Uma liturgia antes social que religiosa, um doce cristianismo lírico, com muitas reminiscências fálicas e animistas das religiões pagãs: os santos e os anjos só faltando tornar-se carne e descer dos altares nos dias de festa para se divertirem com o povo; os bois entrando pelas igrejas para ser benzidos pelos padres; as mães ninando os filhinhos com as mesmas cantigas de louvar o Menino-Deus; as mulheres estéreis indo esfregar-se, de saia levantada, nas pernas de São Gonçalo do Amarante; os maridos cismados de infidelidade conjugal indo interrogar “os rochedos dos cornudos” e as moças casadouras os “rochedos do casamento”; Nossa Senhora do Ó adorada na imagem de uma mulher prenhe.”

 

Esta fusão do ortodoxo com o singelo, das imagens de santos descendo dos altares para dançar e cantar a música do povo, é a mesma mesclagem, amálgama, que encontramos no jeito do brasileiro de fazer festa, se movimentar, comer e até se vestir. Muito antes da colonização do Brasil pelos portugueses, os índios que habitavam neste território já possuíam uma civilização de mais de dez mil anos, com um profundo conhecimento das cores exuberantes e dos processos de tingimentos, feitos a partir de pigmentos naturais, dos quais eles se serviam para a confecção de adereços, em sofisticadas pinturas corporais, na decoração de arcos, flechas e bastões utilizados em rituais. Já os escravos negros trouxeram da África, guardados em sua memória e em seu imaginário, toda a geometria dos tecidos africanos, os ornamentos de seus enfeites corporais, o extraordinário sincretismo de cores da gastronomia, rica em temperos. Tudo isso se misturou e se configurou na estética muito própria que transparece nas máscaras e indumentárias das festas em todas as regiões do país. 

 

O Brasil se plasma pela robustez de sua mestiçagem. São cafuzos, mamelucos, pardos, resultantes da singular fusão do ameríndio que já habitava a terra, do branco ibérico que aqui aportou em 1500 e dos negros trazidos como escravos.

O que se celebra neste território é esta fusão. Cada brasileiro carrega na pele ou na alma, nos seus hábitos e fazeres, na sua culinária cotidiana ou em sua vestimenta a integral fusão do índio, do branco e do negro.

 

Não poderia ser de outra forma no tocante à celebração das festas populares. Aliás, todas elas são fruto desta integração de corpos, de falares, de culturas. 

A CONGADA em Minas Gerais mistura a religiosidade cristã com os atabaques e demais instrumentos de percussão originários da África. Já as CAVALHADAS do Centro-Oeste trazem o tempero de costumes quase medievais europeus mesclados a um colorismo sem par dos trópicos. As FOLIAS DE REIS fluminenses abrangem manifestações dos indígenas tupis e tupinambás com a influência jesuítica e pitadas de ritos africanos. E podemos seguir adiante pelos REISADOS de Alagoas, o MARACATU RURAL de Pernambuco, os diversos BUMBA-MEU-BOI do Maranhão ao BOI-DE-MAMÃO de Santa Catarina, permeados pelos FESTEJOS RITUAIS INDÍGENAS da Região Amazônica.

 

É pela festa que nos reconhecemos mais uns aos outros, criamos irmandade, sentimos que somos parte viva de uma só origem e um só destino. 

 

 

Leonel Kaz e Paulo Costa e Silva [texto publicado no catálogo da exposição "Festa Brasileira" no CRAB, Rio de Janeiro, 2018]

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