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Lucia Bertazzo

Leonel Kaz

textos, resenhas e artigos de Leonel Kaz

Os mais belos livros do mundo

O livro em papel não pode, e nem tem,

de competir com outros formatos.

Tem de ser bonito

Como todas as crianças, a minha filha começou por dividir a Humanidade entre feios e bonitos. Um pouco mais tarde passou a usar a dicotomia clássica, ao estilo elementar de Donald Trump, maus e bons — sendo que os bons, para ela, eram quase sempre os bonitos. Contudo, aí pelos 5 ou 6 anos, teve uma epifania, acordou-me de madrugada e disse-me:

“Papi: tem as pessoas que fazem beleza e as que fazem o mundo mais feio.”

Acho uma excelente filosofia. Desde essa altura sempre me pergunto se com uma determinada ação estarei produzindo beleza, ou, pelo contrário, a prejudicar o fulgor do mundo. Também tento prestar mais atenção às pessoas que tornam o planeta mais bonito. A semana passada tropecei, meio por acaso, em duas delas. A goianiense Lucia Bertazzo e o carioca Leonel Kaz. O casal tinha um ateliê de cultura no Rio de Janeiro, a UQ!. Há cerca de um ano mudaram-se para Lisboa, com o ateliê, uns tantos livros belíssimos e mil e uma ideias. Divorciaram-se, mas, felizmente, mantiveram a sociedade.

Leonel foi um dos fundadores das Edições Alumbramento, juntamente com Salvador Monteiro, já falecido. A Alumbramento destacou-se, ao longo de 25 anos, publicando três dezenas de títulos, vários deles artesanais, muito bem impressos e com uma obsessão pelos detalhes gráficos a raiar a loucura. Leonel lembra, a propósito, uma ocasião em que Salvador Monteiro descobriu uma vírgula a mais numa edição de “Albert Eckhout, pintor de Maurício de Nassau no Brasil”; desesperado, Salvador pegou numa lâmina e passou horas e horas raspando a vírgula de cada um dos três mil exemplares da obra.

A UQ!, sendo herdeira da Alumbramento, ultrapassou-a em sofisticação e ousadia. Os nove títulos publicados até agora, mais do que livros de arte, são autênticos livros-arte. Gosto em particular de “Sem pé nem cabeça”, dedicado a Roberto Magalhães. Nem vou falar no estojo, só por si uma obra de arte, e no original do artista que vem junto com cada livro. Quero falar apenas no livro. As obras reproduzidas nas 76 páginas, sejam elas aquarelas ou desenhos a lápis de cor, parecem originais. Parecem até mais autênticos, mais vivos, do que os próprios originais. Os pretos tragam toda a luz, como buracos negros — dão medo.

O último livro publicado pela dupla, “Cântico Negro”, contém o famoso poema de José Régio, juntamente com uma enorme obra única, original, do português Cabrita Reis. A tipografia do poema é, só por si, outra obra de arte.

São livros com edições limitadíssimas, feitos à mão, um a um, com papéis de linhagem mais nobre e mais exótica do que a de Balkis, a Rainha de Sabá. A má notícia: estão fora do alcance da esmagadora maioria dos leitores. Fora do meu alcance, evidentemente.

Contudo, saber que estes livros existem, mesmo que não na minha biblioteca, deixa-me feliz.

Durante alguns anos fui publicado na Alemanha por uma pequena editora de Munique, a A1 Verlag. A editora funcionava na casa dos proprietários. Sempre que visitava a Alemanha para participar em algum evento literário passava por Munique, e os meus editores, um simpático casal de velhinhos, iam buscar-me ao aeroporto. Levavam-me para a editora e sentavam-me à mesa da cozinha. Discutíamos as próximas edições enquanto comíamos sopa e um pão escuro e um pouco azedo. Não havia pormenor ao qual eles não prestassem atenção. Discutíamos tudo, com os vários responsáveis da casa, incluindo a tipografia e o papel. Não discutíamos nada que tivesse a ver com promoção. Nunca falamos sobre vendas. Acho que nem cheguei a conhecer o responsável pelo marketing.

Os livros com o selo da A1 são objetos perfeitos. Guardo vários títulos, de diversos autores. Gosto de os folhear, mesmo não compreendendo alemão, apenas pelo prazer do toque e da descoberta dos pequenos detalhes tipográficos. Este ano fiquei a saber que a A1 Verlag não resistiu à crise. A notícia não me surpreendeu, mas entristeceu-me. Vou ter saudades daquelas conversas, e daquelas sopas, enquanto nevava lá fora.

Nunca combati os e-books, cujo mercado, de resto, não cresceu como o previsto e está até em declínio. Tenho um iPad no qual carrego centenas de títulos, e que uso sempre que viajo. Se amanhã inventarem livros líquidos, que se possam beber, em dois ou três goles, de forma a que as palavras se instalem, sem esforço algum, dentro do nosso espírito — vou ser dos primeiros a bebê-los. Continuarei, contudo, a ler livros em papel.

O livro em papel não pode, e nem tem, de competir com outros formatos. Tem de ser bonito. Tem de ser um objeto de arte, já não digo como os da UQ!, mas ainda assim um objeto de arte.

Texto de José Eduardo Agualusa, no Jornal O Globo [2.10.2017]

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